Verdi e La Traviata

Vários nomes na história da ópera ultrapassam o conceito de “compositor”.

Monteverdi, Mozart, Puccini, Wagner e Verdi devem ser estudados e encarados como dramaturgos. E a excelência da dramaturgia de Verdi se reflete em todas as suas óperas. Seja num perfeito equilíbrio entre cenas solo ou corais, no desenvolvimento de personagens, ou nos momentos de contraste e conflito criados. E tudo isso com a necessidade de uma profunda concisão literária. Sim, pois um texto cantado consome mais tempo para ser dito que o texto falado. Por isso o papel primordial da música. As emoções, os climas de cada cena ou momento, serão definidos primeiramente pela música composta, muito mais que pelo texto. Assim, em pouquíssimos compassos, o compositor deve estabelecer toda uma gama de sentimento e essa música, por sua vez, resignificará o texto para o qual foi escrita.

Apesar de utilizar de todos os clichês esperados numa ópera do séc XIX (balés, coros, dueto soprano/tenor no final do I ato, cabaletas etc.), Verdi o faz sempre tendo em vista a eficiência desses números dentro da dramaturgia do espetáculo. Sua alternância de momentos coletivos com aqueles intimistas cria todo uma atmosfera de surpresas e nos propicia uma gama expressiva muito grande. Neste sentido, La Traviata é o maior e mais popular exemplo dessa dramaturgia. Tal visão dramatúrgica, aliada ao enorme controle que Verdi tem da linha melódica, cuja construção musical a partir da variação de poucos elementos rítmicos faz com que suas melodias sejam rapidamente memorizáveis, faz com que a música de La Traviata seja tão conhecida e facilmente reconhecível, mesmo para os que a ouvem pela primeira vez.

Sua musica e seu teatro não buscam um realismo. São representações estéticas e artísticas de sentimentos, conflitos e paixões eternas. Desse modo, Verdi imortaliza e, ao mesmo tempo, torna atemporal a história de Violetta. E permite que públicos diversos, em épocas distintas, possam se reconhecer e se encontrar espelhados em seus personagens.

Assim, creio o espaço que La Traviata ainda ocupa é o mesmo da Mona Lisa, das pirâmides do Egito, de Romeo e Julieta etc. Obras ao mesmo tempo eternas e modernas, que se permitem a novas e diferentes abordagens e significações a cada momento, por cada grupo humano que as revisitam.


Elaborado por Marcos Fecchio e desenvolvido por Comunic Publicidade.